segunda-feira, 17 de março de 2008
Eis os nomes que vão encher a ''Bienal do Vazio''
Mabe Bethônico (Brasil)
Carla Zaccagnini (Brasil)
Dora Longo Bahia (Brasil)
Rivane Neuenschwander (Brasil)
Iran do Espírito Santo (Brasil)
Valeska Soares (Brasil)
Alexander Pilis (Brasil)
Leya Mira Brander (Brasil)
Rodrigo Bueno (Brasil)
assume vivid astro focus
(coletivo liderado pelo brasileiro Eli Sudbrack)
Maurício Ianês (Brasil)
Nicolás Robbio (Argentina, vive e trabalha em SP)
Ângela Ferreira (Portugal)
Goldin + Senneby (Estocolmo)
Javier Peñafiel (Espanha)
Joe Sheehan (Nova Zelândia)
Gabriel Sierra (Colômbia)
Erick Beltrán (México)
Micea Cantor (Romênia)
Peter Friedl (Áustria)
Sarnath Banerjee (Índia)
Fischerspooner (EUA)
Para quem quiser ler a reportagem completa.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080317/not_imp141324,0.php
sábado, 15 de março de 2008
Alemanha em outubro
Sei que é uma sopa de letrinhas...
Mas, com paciência da para ler tudo. Está é a próxima exposição que estarei participando. Será na Alemanha em 18 de outubro à 2 novembro de 2008.
Segue abaixo a lista dos artistas que também participarão. E mais os textos de abertura.
"Wasser/Water/Agua" Art Show in Nürnberg 2008
Teilnehmer, die z.T. auch am Workshop Provence 2007 teilgenommen haben:
Brasilien
Ana Façanha, Fortaleza/Herbert Rolim, Fortaleza/Claudia Sampaio, Fortaleza/Meire Guerra, Fortaleza/Jussara Bezzerra, Fortaleza/Siegbert Franklin, Fortaleza/Salete Rocha, Fortaleza/Maira Ortins, Fortaleza/Fernanda Amalfi , São Paulo/Leila de Sarquis , São Paulo/Maria Villares, São Paulo/Julio Camarero, Fortaleza/Coca Rodriguez Sao Paulo/Damara Bianconi Sao Paulo/Liz Miller Sao Paulo/James Kudo Sao Paulo/Paloma Perez Sao Paulo/Edith Derdyk, Sao Paulo
Curadoria Siegbert Franklin Fortaleza
Textos/traducoes: Dr. Inge Thieme, Antropologa São Paulo
Deutschland
Berit Klasing, Nürnberg/Renate Gehrcke,Pappenheim/Marianne Stüve, Nürnberg/Annette Rollenmiller, Nürnberg/Gerlinde Pistner, Nürnberg/Clemens Heinl, Schwabach/TEVAUHA (Thomas Volkmar Held), Nürnberg/Bruno Weiss Nürnberg/Anneliese Kraft/Eva Engelhardt Schwabach/Stefani Peter,Vancouver/Lisa Haselbeck,Nürnberg
Projektleitung: Marianne Stüve/Kunsthistoriker Günter Braunsberg Nürnberg
Frankreich
Monique Cassagne, St Quentin la Poterie/Pat Woolham, St Dézéry/Sarah Wood, St Quentin la Poterie/Benoit Flamand Nîmes
Startseite pontecultura 2008 - "Water...."
Ausstellung / Exhibition / Exposicao
18. Oktober - 2. November 2008
ehemaliges AEG-Gelände, Muggenhoferstr. 135, Nürnberg
Wasser auf dieser Welt
(Einführungs-Text in deutsch/englisch und portugiesisch)
Durch viel zu hohen Konsum, sinnlose Anwendung und skrupellose Vergeudung, besteht die imminente Gefahr, dass unser Trinkwasser eines Tages nicht nur in einigen Ländern, wie bisher, sondern weltweit zur Mangelware wird.
Água do nosso mundo (portugues Dr.I.Thieme)
sexta-feira, 14 de março de 2008
nossa língua e outras tantas
imagem paloma perez - série silencioAndo pensando na língua portuguesa. Talvez por toda globalização, e mesmo sem querer, temos acesso ao mundo inteiro. Onde sem nem mesmo falarmos uma palavra, somos capazes de entender quase todas elas...
Mas o Português é belíssimo, cheio de palavras lindas como: Saudade, Casulo, Vereda, Tesão, Desdizer, Delicadeza...
Fui tentar descobrir em outras línguas, palavras com o mesmo peso de algumas nossas, pesos quero dizer, na dificuldade de tradução. Adorei a brincadeira, apesar de continuar achando a nossa língua a mais linda. Existem outras palavras, que apesar da tentativa de tradução, ficam sem sentido assim como as nossas. Seria como tentar comparar "saudade" com qualquer uma destas palavras. Só quem "entende" saudade, poderia saber seu significado. São palavras que não existe tradução, somente entendimento.
Aí vai...
Segundo a diretora da Today Translations, Jurga Ziliskiene, embora as definições abaixo sejam aparentemente precisas, o problema para o tradutor é refletir, com outras palavras, as referências à cultura local que os vocábulos originais carregam.
"Provavelmente você pode olhar no dicionário e [...] encontrar o significado", disse. "Mas, mais importante que isso, são as experiências culturais [...] e a ênfase cultural das palavras."
Veja a lista completa das dez palavras consideradas de mais difícil tradução:
1. "Ilunga" (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
2. "Shlimazl" (ídiche) - uma pessoa cronicamente azarada.
3. "Radioukacz" (polonês) - pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência o domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro.
4. "Naa" (japonês) - palavra usada apenas em uma região do país para enfatizar declarações ou concordar com alguém.
5. "Altahmam" (árabe) - um tipo de tristeza profunda.
6. "Gezellig" (holandês) - aconchegante.
7. Saudade (português)
8. "Selathirupavar" (tâmil, língua falada no sul da Índia) - palavra usada para definir um certo tipo de ausência não-autorizada frente a deveres.
9. "Pochemuchka" (russo) - uma pessoa que faz perguntas demais.
10. "Klloshar" (albanês) - perdedor.
terça-feira, 11 de março de 2008
A arte acabou no supermercado - Arnaldo Jabor
Jornal O Estado de São Paulo - Terça-feira, 11 de março de 2008
Continuo adorando o Jabor!
Bons tempos, quando os artistas eram olhados como messias chiques em Paris e Manhattan, cheios de veneno e esperança, línguas afiadas, muitos olhados com humildade bovina pelos idiotas que, como dizia Nelson Rodrigues, ficavam de boca aberta, de onde pingava a baba elástica da admiração. Hoje, com a pós-neoliberalização da cretinice, os idiotas se metem em tudo além de criarem uma subarte de massas repulsiva e triunfante. Os artistas ficaram sem admiradores, saudosos dos anos 20 ou 30, quando eram deuses. Sobrou ao artista apenas uma atitude masoquista, fazendo qualquer coisa para reconstruir uma ''aura'' à sua volta, até se mutilando em body art ou em instalações grandiloqüentes.
Lembrei-me do Algonquin porque, outro dia, me caiu nas mãos um velho número do The Atlantic Monthly, no meio havia um artigo que parecia uma resposta aos meus devaneios.
''Onde estão os artistas?'', perguntava o ensaísta Brad Holland, lembrando que muitos criadores dos anos 20 aderiram ao ''futurismo'' que pregava ''a substituição da lenta tradição do século 19 por um mundo veloz e moderno de máquinas, violências de marketing e relações públicas''. E brincava, dizendo que ''é preciso ter cuidado com os intelectuais. Às vezes eles conseguem o que querem''.
O tom do artigo de Holland, cáustico, de uns anos atrás, era parte daquele momento da euforia do pós-moderno, quando tudo que denotasse esperança de mudar o mundo era ridicularizado. E o pior é que muitas frases do Holland continuam tendo sentido. Criticam a onipotência que os intelectuais erigiram como consolo, desde utopias estéticas até o delírio voluntarista. E Holland, tripudia em cima: ''Duchamp fez uma obra-prima que foi um urinol. E chegou ao fim da vida jogando xadrez, como se fosse um manifesto artístico. Meu avô também acabou num urinol jogando xadrez.'' E, criticando o dadaísmo e o surrealismo: ''Hoje é impossível distinguir esses dois movimentos estéticos da vida cotidiana.''
E continua: ''Há décadas que o establishment artístico é composto por escultores de terra, sujeitos furando o corpo e violoncelistas de topless'', diz Brad.
Tudo para evitar o terrível. E o ''terrível'' é a evidência da vitória do sonho americano que esmagou o sonho europeu. Talvez a arte tenha virado mesmo um mero entretenimento, talvez não passemos de efêmeros produtores de objetos parciais, passageiros e descartáveis. A morte da ''aura'' da arte talvez seja mais difícil de aceitar do que pensávamos. Aceitá-la é aceitar a morte. Hoje, a aura passou para o próprio artista, que se vê como um profeta abandonado. O Holland ainda sacaneia: ''Antigamente, o artista de vanguarda chocava a classe média; hoje, a classe média choca o artista de vanguarda.'' É cruel, mas é na mosca.
É duro ouvir frases que Mallarmé poderia ter dito como ''Estamos tentando romper com as normas'' sendo usadas como slogan do anúncio do McDonald''s. Estas picadas do marimbondo americano são úteis: ''O artista atual típico produz uma obra pequena envolvida por muita teoria. Poderia dispensar a obra e expor a teoria.'' Ou criticando a arte engajada: ''Sempre que vejo um artista querendo me ''conscientizar'' me lembro de Jane Fonda e Sissy Spacek explicando ao Congresso as realidades da vida rural.'' Ou ainda sobre o ''multiculturalismo'' politicamente correto que dizima as universidades: ''Não entendo por que os artistas que odeiam os clichês de sua própria cultura desejem tão ansiosamente adotar os clichês de culturas sobre as quais eles nada sabem.''
E Holland sacaneia também o expressionismo abstrato: ''As multinacionais não podiam enfeitar seus halls de estilo Bauhaus com retratos de palhaços tristes e casinhas de campo. Por isso, o abstracionismo foi inventado.''
A mesma amarga gozação, ovante com a vitória do pragmatismo, era usada sobre a pop art. ''Antes, os ricos encomendavam belíssimos quadros para seus palácios. A reprodução dessas obras acabava em calendários pendurados nos postos de gasolina. Hoje é o inverso: o sujeito pinta uma caixa de sopa vagabunda que acaba pendurada na sala dos ricos.'' O artigo de Holland mostra um outro lado mais ''sanitário'': criticava o utopismo narcisista que a arte teima em manter, se recusando a aceitar a finitude da obra no mundo, a não ser com um desespero saudoso, a não ser com a melancolia que celebra o feio. Disfarçado, mesmo em tortuosas ''instalações'', o artista busca uma ''essência'' que o mundo de hoje rejeita.
Abrir mão da utopia da arte moderna é tão difícil quanto abrir mão de velhos dogmas políticos. Que será da arte? Como dói perder a fé... Estamos precisando de um novo Van Gogh. Que arte precisa ser reinventada? Talvez um ''neo-sublime'', agora que o nome de Picasso já é uma marca de carro.
Será que há lugar para uma nova exaltação da vida, uma arte profunda dentro desse pântano dos cânones americanos de mercado? Enquanto a ciência está ''bombando'', a arte toda, da literatura ao cinema, vive esse dilema.
Lendo essas coisas graves eu pensava no hall do Algonquin, e imaginava os bons tempos, vendo o fantasma tênue de Edmund Wilson cair de porre no tapete secular, comendo a última cereja do dry martini.
segunda-feira, 10 de março de 2008
de onde a gente vem?

ilustração Julio Camarero
Meu pai acaba de mandar de presente essa ilustração que fez... Para quem não sabe, meu pai também é artista, e artista daqueles que desenham até de olhos vendados.
Foi uma surpresa. Eu nunca tinha visto. Está sendo muito bom saber de onde venho.
Se quiser ver grande, é só clicar na imagem...
quarta-feira, 5 de março de 2008
das flores

segunda-feira, 3 de março de 2008
conversando com meus botões
domingo, 2 de março de 2008
A mulher que driblou o nazismo

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é a única mulher brasileira cujo nome é citado no Museu do Holocausto
Fabiana Caso - Jornal "O Estado de São Paulo"
Em plena era nazista, imagine uma mulher linda, de tipo físico latino, com forte apelo sensual, que passava zunindo em seu veículo pelas ruas de Hamburgo, na Alemanha. Os guardas paravam o carro, mas ficavam boquiabertos com a figura altiva que saía de dentro dele, falando um alemão perfeito e sem sotaque. Inertes, constatavam, então, que ela era funcionária consular, com imunidade garantida. Mal sabiam que, por vezes, ela transportava judeus - para os quais conseguia vistos de entrada no Brasil e até mesmo o navio em que embarcariam.Não bastassem essas proezas, Aracy de Carvalho foi casada com um dos maiores escritores brasileiros: João Guimarães Rosa. No próximo mês, ela completa 100 anos de vida - assim como faria o escritor. Mora na capital paulista com seu filho, o advogado especializado em Direito Corporativo e Internacional, Eduardo Carvalho Tess, e a nora Beatriz Carvalho Tess. Tem quatro netos e oito bisnetos.
Até os 90 anos, ela morava sozinha no apartamento que dividiu com o marido no Rio de Janeiro, mas, há cerca de sete anos, sofre do Mal de Alzheimer. Por uma ironia do destino, alguém com tanto para contar já não fala, não anda e reconhece o filho apenas algumas vezes. Mas sua memória ficará viva: no momento, duas pesquisadoras estão finalizando uma biografia que vai contar a fascinante história de dona Aracy, enquanto outras brasileiras estão executando pesquisas na Alemanha para um documentário sobre o tema.
Pioneira em todos os aspectos, Aracy é filha de mãe alemã e pai brasileiro. Nasceu em Rio Negro, no Paraná, mas se criou em São Paulo. Como as moças da época, casou-se cedo, com o alemão Johannes Edward Ludwig Tess, com quem teve o filho Eduardo. Mas, insatisfeita, optou pelo desquite e emigrou para a Alemanha. “Um dos motivos foi o clima não muito favorável para uma mulher desquitada no Brasil”, conta o filho Eduardo. “Meu pai era alemão, um tipo nórdico, e minha mãe tinha personalidade muito latina.”
Com o filho de 5 anos, ela aportou na Alemanha em 1934 e foi morar com uma tia em Hamburgo. Como falava fluentemente alemão, francês e inglês, conseguiu um emprego como chefe de vistos no Consulado do Brasil naquela cidade. Logo o regime nazista e a perseguição aos judeus passaram a revoltar Aracy, especialmente depois da chamada Noite dos Cristais - um atentado às sinagogas, comércios e aos próprios judeus, em 1938. Eduardo lembra de ter visto as vidraças quebradas do comércio judaico.
Foi no Consulado que Aracy conheceu o então diplomata João Guimarães Rosa, que tinha o cargo de vice-cônsul. Na época, a Alemanha vivia um racionamento de comida e, aos semitas, era dada uma quantidade menor de alimentos. Aracy passou a alimentá-los com a cota extra que recebia no Consulado: ia de casa em casa distribuindo comida. Dizem que Guimarães Rosa a acompanhava nessas distribuições, mesmo morrendo de medo pelo que poderia acontecer com sua mulher.
Ela foi bem mais longe. Como a entrada dos judeus estava proibida no Brasil pelas leis do Estado Novo, conseguiu vistos para cerca de 100 famílias, segundo as contas de seu filho. A partir de 1937, obtinha atestados de residência para os judeus em Hamburgo e, assim, conseguia a emissão de passaportes sem o J de identificação. Colocava-os em meio à papelada para o cônsul assinar, sem levantar suspeitas.
Eduardo era pequeno na época e, por questões de segurança, foi enviado de volta para morar com a avó em São Paulo - o próprio governo alemão começou a evacuar as crianças por causa dos bombardeios. Mas, segundo contaram ao filho, nessa bonita missão protetora, sua mãe teve o auxílio de um instrutor da auto-escola onde aprendeu a dirigir, que também era policial. “Dizem que era ele que conseguia os atestados de residência em Hamburgo.” Em uma das homenagens a ela, Aracy disse que fez tudo isso “simplesmente porque somos todos irmãos”, lembram Eduardo e Beatriz. “Ela era guerreira e corajosa, sabia se posicionar”, resume seu filho.
RELATO
Uma das pessoas salvas por dona Aracy também vai completar 100 anos em novembro. Ela se chama Maria Margareth Bertel Levy (depois que seu nome polonês foi trocado no passaporte) e hoje vive no mesmo bairro que dona Aracy. Lúcida e meiga, fala com carinho sobre a benfeitora, de quem acabou se tornando uma amiga para toda a vida. “Fui pedir um visto para entrar no Brasil no Consulado e conheci Aracy. Foi amor à primeira vista.”
Naquela época, em Hamburgo, o marido de Margareth estava escondido em um lugar que apenas ela sabia. No dia em que ele deveria embarcar no navio, Aracy deixou o seu carro com placa consular na porta do prédio de Margareth, para ela ir pegá-lo, caso houvesse qualquer imprevisto. “Ela guardou minhas jóias em sua casa e nos acompanhou até o camarote do navio. Lá, escondeu o saquinho com as jóias na descarga do banheiro. E só desceu quando já estavam retirando a ponte”, lembra. Margareth conseguiu retomar o contato com Aracy porque tinha o endereço da mãe dela, Sida Mobius de Carvalho (que faleceu aos 104 anos).
Entusiasmada, a amiga lembra de outra família “salva”, que não falava uma palavra sequer de português. “Quando foram embarcar para o Brasil, Aracy deu a eles o endereço da tia dela em São Paulo, que falava alemão. Acho que ficaram até devendo dinheiro para ela”, fala. “Ela era um anjo. Uma mulher linda e sensual que só queria fazer o bem para as pessoas em apuros.” Depois de décadas trabalhando com o marido, que era dentista, Margareth ficou viúva há cerca de 20 anos. Não tem filhos, mas a família de Aracy continua cuidando dela até hoje: Eduardo e Beatriz fazem visitas diárias.
Pelo seu feito, Aracy é a única mulher brasileira que tem o nome no Museu do Holocausto, em Jerusalém. Lá, há uma árvore plantada em sua homenagem no chamado Jardim dos Justos, onde são citados outros protetores famosos, como Oskar Schindler. O rabino da Congregação Israelita Paulista (CIP), Michel Schlesinger, que esteve no Museu há pouco tempo, comenta: “Aracy foi uma dessas pessoas que não silenciaram diante do regime nazista, que sentiram que tinham uma missão e colocaram a própria segurança em segundo lugar para que os semitas fossem salvos. É admirável, porque ignorou a proibição. A coisa mais fácil era deixar passar.”
AMOR NA TERRA NATAL
Aracy voltou ao Brasil com Guimarães Rosa em 1942, depois de um tempo em Baden Baden, onde viveram com as porções racionadas de comida e sem calefação. Casaram-se por procuração no México - as leis brasileiras não permitiam o casamento de dois desquitados. Em terra natal, Aracy abriu mão da carreira diplomática por causa do amor a seu Joãozinho, apelido carinhoso pelo qual chamava o escritor. Era proibido que duas pessoas casadas trabalhassem na mesma embaixada.
Depois do período em que o escritor trabalhou na embaixada de Bogotá, na Colômbia, os dois foram para o Rio de Janeiro, onde passaram a maior parte da vida, rodeados por muitos cachorros e gatos. A família conta que Aracy ficava sentada ao lado de Guimarães enquanto ele escrevia - invariavelmente, lia trechos para ela. “Minha mãe dava palpites e sugestões”, diz Eduardo. Não foi à toa que ele deu Grande Sertão: Veredas para a mulher, com a seguinte frase: “À Ara - minha mulher, muito amada, minha companheira para sempre - com a vida e o carinho do seu Joãozinho”.
Nos anos sombrios da ditadura militar, Aracy voltou a praticar sua solidariedade. Com Guimarães, ajudou o amigo do casal Franklin de Oliveira a se exilar. Já viúva, ficou sabendo que o compositor Geraldo Vandré estava sendo procurado e o escondeu em seu apartamento por quase três meses. Eduardo lembra dessa época. “Tínhamos medo de que as crianças acabassem entregando.” Vandré ainda ficou escondido na casa da mãe de Aracy, Syda, em São Paulo, antes de cruzar fronteiras.
A linda história de Aracy encantou a então pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da Universidade de São Paulo (USP), Neuma Cavalcante. Ela era responsável pelo acervo de Guimarães Rosa, mas ficou intrigada com essa mulher, para quem tinha dado o livro Grande Sertão: Veredas. Quando descobriu que protegera os judeus no nazismo, resolveu escrever uma biografia sua, juntamente com a professora licenciada da USP, Elza Mine. “Quando Grande Sertão foi traduzido para o francês, Guimarães escreveu para o tradutor, dizendo que não tinha dedicado o livro, mas dado para Aracy.”


