quarta-feira, 17 de outubro de 2007

a cara da arte brasileira...

imagem paloma perez

Quem quer ser curador da Bienal?
Seis perguntas para três personalidades do circuito das artes que se recusaram a apresentar projetos para a próxima mostra

1) Na sua avaliação, por que a Bienal de São Paulo chegou a este estágio atual de crise tão propalada?
TADEU: Penso que a Bienal está em crise porque é uma instituição que não se pensa. Parece-me que, hoje em dia, ela está interessada em cumprir uma obrigação: realizar a cada dois anos uma mostra internacional de arte contemporânea. Tudo o que ela acumulou nestes mais de 50 anos parece não lhe interessar, e uma visão a médio e longo prazo sobre si mesma, isso parece não existir para a instituição.

SOLANGE: Também gostaria de saber. É difícil entender por que se pensou em convidar curadores tão tardiamente.

AGNALDO: Como saber, sem viver o dia-a-dia da instituição? A julgar pela mídia, o problema é de gestão. Mas desde sempre a Bienal, com dificuldades de captação, esbarra em problemas dessa natureza.


2) Por que essa dificuldade de encontrar um curador para a próxima Bienal de São Paulo, a 28.ª? É uma espécie de boicote a um modelo ou à polêmica gestão? Ou falta de tempo e de recursos?

TADEU: Não acredito que tenha havido boicote contra à Bienal ou à atual gestão. O que me levou a recusar o convite para apresentar um projeto para a próxima edição foi não acreditar que este seja o caminho para se pensar a Bienal, o seu futuro e o seu papel dentro da cena artística brasileira e internacional. Não quero propor um projeto de exposição desconectado de um projeto de médio ou longo prazo para a Fundação para satisfazer uma ego-trip sem conexão com a realidade da cultura do País. Recusei-me a enviar o projeto, mas me coloquei à disposição para discutir mais amplamente a Bienal e seus destinos, se os atuais dirigentes da instituição estiverem interessados.
SOLANGE: A minha experiência é que fui convidada a apresentar um projeto para a próxima Bienal em menos de um mês. Quem tem noção do que é um processo curatorial sabe que é um prazo absolutamente inviável. Para qualquer curador, um projeto de Bienal é algo sério, que envolve muita pesquisa.

AGNALDO: Não creio que tenha havido boicote. No meu caso, o pouco tempo para a realização de um trabalho previsto para outubro de 2008 foi decisivo para que não aceitasse.


3) O que é crise do modelo Bienal (ou papel de uma Bienal nestes tempos) e o que é particular a essa instituição?

TADEU: Penso que a Bienal de São Paulo deve pensar sobre qual o tipo de diálogo que ela quer manter com a cena artística internacional, com as outras Bienais que se espalharam pelo mundo, com o boom das feiras de arte, etc., e também sobre quais são seus efetivos compromissos com a cena artística brasileira, a plataforma inicial em que ela está inserida. A partir da identificação dessas questões e das possíveis respostas é que ela deveria repensar seu modelo, não para a próxima edição, mas, pelo menos, para as próximas cinco edições. E, obviamente, essa discussão deveria ser alimentada continuamente.

SOLANGE: Fala-se muito da crise das Bienais no meio das artes. A sensação geral é de que essas instituições perdem algo de sua essência ao se comprometer com o mercado. Às vezes, fica difícil diferenciá-las das grandes feiras internacionais de arte. O propósito original das Bienais é apontar vertentes, e não ser palatáveis para o mercado. Em relação a esta gestão, não dá para entender por que o catálogo da última Bienal ainda não foi editado, nem por que se voltou atrás no salto importantíssimo (e corajoso) que foi a proposta da Lisette Lagnado de acabar com as representações nacionais. Embora tenham um papel na viabilização da Bienal, as representações nacionais, da maneira como são realizadas, impossibilitam a construção de uma idéia curatorial coesa.

AGNALDO: Irei me ater ao trecho em parênteses, isto é, o papel de uma Bienal nestes tempos. A edição anterior, que teve como curadora Lisette Lagnado, confirmou a importância do evento. Gerou controvérsia, é claro. Como não gerar? Mas mesmo o mais recalcitrante dos seus críticos admitiu, ou deveria ter admitido, que se trata de uma parcela da produção das mais sérias e que hoje está em grande voga. Tê-la apresentado do modo como foi feito é, a meu ver, um grande mérito. A Bienal de São Paulo segue sendo o melhor e quase único fórum de apresentação e debate do que anda sendo produzido em escala internacional. Há alguns anos atrás, com o fomento à cultura propiciado pelas leis de incentivo, julguei que os museus e outras instituições dariam conta do recado. Não foi bem isso que aconteceu. O tempo passou, as instituições vivem muitas dificuldades, não entramos no circuito internacional e a Bienal segue valendo como espaço privilegiado.


4) Dentre os papéis atribuídos à Bienal, estão o de disseminar por aqui a produção internacional (seja a contemporânea, seja a histórica), ajudar na formação do público e dos agentes da área, garantir um espaço de projeção e reflexão sobre a produção nacional... Essas metas ainda são válidas? Qual seria, do seu ponto de vista, o aspecto mais relevante, positivo, da Bienal de São Paulo? E qual seria sua principal crítica?

TADEU: Creio que o modelo que aí está - uma Bienal burocrática que somente pensa em cumprir a obrigação de realizar uma edição a cada dois anos, a partir de projetos que não se conectam - não pode e não deve continuar. Não me parece que, apesar dos esforços dos últimos curadores, as últimas edições tenham cumprido os propósitos que nortearam as primeiras edições. Bienais agigantadas, será que é esse o modelo que devemos seguir? Qual o lastro que ela quer deixar em seu público, apenas a experiência da visita? É melancólico perceber que estamos chegando perto da próxima edição e ainda não foi lançado o catálogo geral da última! Por que não foi lançado? Talvez porque considerem de menor importância um documento que sistematize e aprofunde as questões lançadas pelos trabalhos apresentados? Porque o que importa, na verdade, é a ''''festa'''' e não propriamente criar possibilidades para que ele frutifique, germine por meio da reflexão?

SOLANGE: Essas metas continuam válidas, ainda que me pareça evidente que a vocação das Bienais seja mapear a produção contemporânea. Os eixos históricos foram concebidos em um momento em que não havia circulação suficiente de mostras internacionais importantes por aqui. Essa cena mudou. É inconcebível que, a esta altura, ainda não tenhamos definido diretrizes básicas. O ponto positivo da Bienal de São Paulo é que, mesmo no meio dessa bagunça toda, ela continua sendo considerada uma das mais importantes do mundo.

AGNALDO: Essas metas ainda são válidas e aconselho uma visita à atual Bienal do Mercosul para ver como o modelo pode funcionar. A Bienal de São Paulo vem cumprindo essa agenda muito embora o resultado varia de edição para edição. A principal crítica é a falta de continuidade nos seus ganhos, como a abolição das representações nacionais, o estabelecimento de recortes que a tornem mais coesa, a criação de um sistema transparente para a seleção do curador. Jogar tudo isso pela janela será um desastre. Qualquer um que assuma a presidência deveria saber que um evento da natureza da Bienal possui suas rotinas, o não cumprimento delas, ou realizá-las de afogadilho, quase sempre compromete o resultado. A meu ver, desta vez o melhor a ser feito é respirar fundo e adiar a próxima edição.

5) É possível pensar hoje numa Bienal que não ceda espaço à cultura do espetáculo? Os índices de freqüência, próximos a 1 milhão de espectadores, trazem algum alento ou apenas confirmam a esquizofrenia do evento?

TADEU: Penso ser perfeitamente possível pensar uma Bienal que não ceda à cultura do espetáculo. Parece-me apenas que é só ter vontade política, compromisso com a idéia de que a Bienal não é uma feira, que ela é um espaço de exibição e reflexão e que, para que deite raízes efetivas no campo da cultura e da arte, não precisa e não deve competir com outros eventos. Porque, de fato, ela não se resume a um evento periódico. É muito mais do que isso. Ou melhor, até poucos anos atrás, ela era muito maior do que isso. Parece-me que hoje em dia, no entanto, ela se esqueceu de si mesma.

SOLANGE: A Bienal deveria ser o espaço do que ainda vai ser, das grandes pesquisas no campo da arte. Por outro lado, os curadores se vêem diante de uma cobrança por público, e isso gera uma esquizofrenia, de fato.
AGNALDO: É impossível. A dimensão do evento faz com que ele pertença à lógica do espetáculo. O que não quer dizer que não se possam extrair aspectos positivos daí. Quanto a isso, a Bienal, desde o seu nascimento, contribuiu imensamente para o avanço da nossa produção e para a formação do público.


6) Como fazer para tentar diminuir esse incômodo divórcio existente entre a arte contemporânea e o público?

TADEU: Não creio em divórcio porque não creio em casamento. Acredito que a arte contemporânea e o público andam em paralelo, quase sempre se ignorando. No Brasil, ocorriam situações em que eles se cruzavam de maneira extremamente protéica, e essas situações ocorriam, sobretudo, quando as Bienais cumpriam seu papel pedagógico que não pode ser resumido apenas a um setor de monitoria, por melhor que ele seja estruturado. O papel da Bienal nessa área durante muito tempo não se resumiu aos seus quadros de monitores (historicamente fundamentais para a arte e a reflexão sobre a arte no Brasil). É preciso muito mais para que a Bienal volte a estabelecer de novo efetivas conexões com o público.

SOLANGE: Não acho que haja divórcio, mas uma relação a ser conquistada.
AGNALDO: Em primeiro lugar, fazendo com que ele a freqüente. A "freqüentação", como um dia disse Lourival Gomes Machado, é fundamental para que o público perceba a inteligência da arte contemporânea e os benefícios que ele pode extrair disso.

Jornal Estado de São Paulo - Terça-Feira, 02 de Outubro de 2007 | Versão Impressa

Um comentário:

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