terça-feira, 11 de setembro de 2007

Meu LAR



Este trabalho faz parte de um projeto de arte, que eu e Robin estamos ainda fazendo, começou em 2003 e espero que continue... Até acharmos que não temos mais nada para contar!
***
O sentimento dele (Jabor) é tão meu que chego a ficar impressionada. Afinal o Rio de Janeiro foi minha casa e mais que isso, minha infância (essa um dia eu conto...)

De lá guardo as melhores lembranças, as primeiras descobertas e amigos mais que queridos. Mas por um motivo ou outro quando vou ao Rio, tenho fortemente essa sensação "
O RIO DE JANEIRO CAIU EM DEPRESSÃO". Talvez minha visão seja mais individualista. Percebo ela nas pessoas, em seus movimentos, seus trabalhos, suas casas e vidas. Tudo com soluções bastante complicadas ou nenhuma o que parece-me pior. Quando diferentes essas pessoas tem um único movimento de querer sair de lar (ato-falho feio) lá.


"O RIO DE JANEIRO CAIU EM DEPRESSÃO"

Sou um homem de duas cidades. Moro em São Paulo há 15 anos e mantenho raízes no Rio. Vou e volto. Às vezes, passo um mês sem ir ao Rio, e isso me permite vê-lo melhor. É espantoso perceber o tempo passando no espaço. Vejo as árvores da Lagoa, que estão mais crescidas, noto mínimas mutações invisíveis ao morador permanente, sinto mudanças em gestos, modos de falar, gírias recentes, uma fachada art déco que caiu, um horrendo shopping vertical que subiu, o terrível "pirocão" do Bar Vinte que continua transformando Ipanema num gueto amarelo e sujo, vejo roupas mais amarfanhadas, tristezas nos rostos outrora alegres, sinto a ausência das cigarras, dos pardais, vejo misérias novas nos sinais de trânsito. Antes, não notava tanto essas coisas e sinto dizer-vos: o Rio piorou.

Não sei se para sempre, mas sua crise é hoje gritante. Não apenas pelas tragédias políticas que tivemos, 40 anos de populismo corrupto comandado pela Alerj e governadores, não apenas pelos oito anos da anomalia política Garotinho e senhora, não apenas pelo vergonhoso desleixo de César Maia, não apenas pelo fim do Estado da Guanabara, que nos trouxe os vícios do atraso fluminense e nenhuma vantagem, não apenas pela violência inevitável que a multinacional do pó financia nos morros e os narizes "patricinhos" avalizam, não apenas por isso, não pelos assaltos ou crimes.
O Rio piorou "internamente", dentro das cabeças. O Rio era uma região psíquica para mim. O Rio foi uma cidade que sempre carreguei para onde ia, como um amuleto de sorte, um brevet orgulhoso de carioca.

Mas, infelizmente, está um bode.
Neste momento, pareço ouvir o rosnar de ódio contra mim, nos bares. Eriçam-se — como "cerdas bravas do javali" — os pêlos de chopeiros e cariocas da gema, de bermudão e gargalhada. Sei disso. Mas repito: o Rio piorou. Primeiro, porque não tem dinheiro algum. É uma cidade falida, sem empreendimentos, além do bolsão de Petróleo de Campos, feudo dos corruptos fluminenses. (Aliás, é bom notar que falo do Rio, principalmente, como cidade)

Outro fator da decadência é a insolubilidade dos problemas. Em nossa mente paira o desespero: como vamos urbanizar 570 favelas que crescem? Ninguém sabe.
Por causa dos problemas insolúveis, começamos a exalar cava depressão. O carioca da gema dirá: "Qual é a tua, cara, estamos numa boa!" E eu respondo: "Não estamos, não!"

É que esta depressão não é óbvia, visível, daquelas de enfiar a cabeça no bueiro, não.
Ela vem disfarçada por falsas racionalizações. Por exemplo, ela pode vir vestida de um abstrato amor à paisagem: "Ahh... vamos eleger o Cristo maravilha do mundo (cheio de assaltantes na base...)... Ahhh... vamos louvar o Leblon... Ahh... vamos abraçar a Lagoa e pedir a paz... Ah... o Pan foi um sucesso (apesar de ter custado oito vezes mais caro). Esta depressão instalada no Rio também se camufla atrás de um narcisismo auto-suficiente, como se fôssemos ainda "malandros", como se
soubéssemos de tudo: "Ah, cara, quem sacou ou, quem não sacou não vai sacar nunca",tudo por trás de um vago "cafajestismo poético", por trás de uma certa irresponsabilidade como tradição "manemolente". Vejo também no Rio uma desinformação disseminada pelas questões políticas mais complexas. Discute-se se as ideologias fossem um fla-flu, tipo "Lula X neoliberais", não se contemplam as ramificações econômicas e políticas de nossa crise atual, há o vago sentimento de uma certa "esquerda" abstrata, da boca para fora, um populismo simplista que deu no que deu: na eleição de Rosinha, em vez de Benedita, na época. (Até hoje, não sei como isso pôde ter acontecido)

A depressão carioca também se transfigura em euforia camavalizada, com a hipersexualização do samba e do turismo, a sacralização das bundas e barrigas, a boçalização da música de massas. Tudo isso é decadência denegada.

Somos uma cidade sem informação, se comparada com São Paulo hoje em dia. Nas escolas, nas universidades, na oferta cultural high brow, São Paulo é muito superior à carioca.

Mas por que falo isso?
Bem, porque acho que também há sementes brotando nesse lixo urbano. Nas periferias pobres, já vimos exemplos como o que o Centro da Periferia nos mostrou na TV, na ação civilizatória do AfroReggae e de outros. Falo também porque vi ontem o filme "Brasileirinho", um belo trabalho sobre o chorinho, feito por um finlandês, Mika Kaurismaki (é incrível como o Cinema Novo passou sem um filme sobre nossa música. Só agora, o "Vinícius", do Miguel Faria). Saí, emocionadíssimo. Lá estava uma esperança, nas músicas e figuras de Maurício Carrilho, Teresa Cristina, Luciana Rabello, Guinga, Paulo Moura, Zé da Velha, Cristóvão Bastos, Carlos Malta, Yamandú Costa... tantos...

Lá estava o indício de que a História de um país gera também anticorpos contra o horror.
Há, no Rio, um renascimento do choro na classe média (minha irmã pianista, Lucília Jabor, já tinha me alertado para isso), ressurge um amor defensivo pela música (e pela vida) que estava silencioso.

Nos botecos do Rio, em escolas, já brotou uma nova moda musical carioca. Eu sou do tempo em que o Rio tinha uma cor artística, um brilho que esmaeceu com a cultura de massas. O choro, o nosso jazz (que aliás salvou a América dos brancos azedos), pode ser uma alavanca de alegria e de orgulho. Acho que o governo de Sérgio Cabral começou cheio de ânimo. Há que se combater a violência, sim, com garra e dureza, mas temos de estimular também a leveza, a alegria. Mika, o diretor, disse: "Nesta batalha entre a tristeza e a alegria, a alegria tem de vencer..."
Sérgio Cabral devia nomear seu pai secretário da Música, cercado por homens como Hermínio Belo, como Paulo Moura, Albino Pinheiro, se fosse vivo.

Winton Marsalis declarou sobre o jazz: "O jazz é como a democracia. Cada um tem direito a seu solo, mas tem de negociar esse direito com o conjunto." O mesmo serve para o choro. Não percam esse filme. É um remédio melhor que qualquer Prozac.

Autor: Arnaldo Jabor
Colunista do Jornal "O Globo" e "O Estado de São Paulo"



2 comentários:

osrevni disse...

Paloma, parabéns pelo blog, que ficou muito bonito. Com relação ao texto, conheço bem as duas cidades, acho ambas terríveis, insalubres pra se viver. mas Pelo menos o Rio ainda me dá alguma saudade, de São Paulo só quero distância, aquele pântano de fuligem sem cérebro e sem alma. De qualquer forma, o texto não tem cara de ter sido escrito pelo Jabor...

paloma disse...

Osrevni,
Obrigada pela visita. E mais por ter parado para ler. Pensamos parecido, Sao Paulo é o caos. Minha vontade é ir embora... O texto é do Arnaldo Jabor sim, recebo a versao impressa do jornal.