
imagem paloma perez

Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.
Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
Pero ¿quién vendrá? ¿Y por dónde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.
--Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los puertos de Cabra.
--Si yo pudiera, mocito,
ese trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
--Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
--Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
--Dejadme subir al menos
hacia las altas barandas.
¡dejadme subir!, dejadme,
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.
Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal
herían la madrugada.
Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime
dónde está tu niña amarga?
¡Cuantas veces te esperó!
¡Cuantas veces te esperara
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!
Sobre el rostro del aljibe
se mecía la gitana
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche se puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.




imagem paloma perez
Sou um homem de duas cidades. Moro em São Paulo há 15 anos e mantenho raízes no Rio. Vou e volto. Às vezes, passo um mês sem ir ao Rio, e isso me permite vê-lo melhor. É espantoso perceber o tempo passando no espaço. Vejo as árvores da Lagoa, que estão mais crescidas, noto mínimas mutações invisíveis ao morador permanente, sinto mudanças em gestos, modos de falar, gírias recentes, uma fachada art déco que caiu, um horrendo shopping vertical que subiu, o terrível "pirocão" do Bar Vinte que continua transformando Ipanema num gueto amarelo e sujo, vejo roupas mais amarfanhadas, tristezas nos rostos outrora alegres, sinto a ausência das cigarras, dos pardais, vejo misérias novas nos sinais de trânsito. Antes, não notava tanto essas coisas e sinto dizer-vos: o Rio piorou.
Não sei se para sempre, mas sua crise é hoje gritante. Não apenas pelas tragédias políticas que tivemos, 40 anos de populismo corrupto comandado pela Alerj e governadores, não apenas pelos oito anos da anomalia política Garotinho e senhora, não apenas pelo vergonhoso desleixo de César Maia, não apenas pelo fim do Estado da Guanabara, que nos trouxe os vícios do atraso fluminense e nenhuma vantagem, não apenas pela violência inevitável que a multinacional do pó financia nos morros e os narizes "patricinhos" avalizam, não apenas por isso, não pelos assaltos ou crimes.
O Rio piorou "internamente", dentro das cabeças. O Rio era uma região psíquica para mim. O Rio foi uma cidade que sempre carreguei para onde ia, como um amuleto de sorte, um brevet orgulhoso de carioca.
Mas, infelizmente, está um bode.
Neste momento, pareço ouvir o rosnar de ódio contra mim, nos bares. Eriçam-se — como "cerdas bravas do javali" — os pêlos de chopeiros e cariocas da gema, de bermudão e gargalhada. Sei disso. Mas repito: o Rio piorou. Primeiro, porque não tem dinheiro algum. É uma cidade falida, sem empreendimentos, além do bolsão de Petróleo de Campos, feudo dos corruptos fluminenses. (Aliás, é bom notar que falo do Rio, principalmente, como cidade)
Outro fator da decadência é a insolubilidade dos problemas. Em nossa mente paira o desespero: como vamos urbanizar 570 favelas que crescem? Ninguém sabe.
Por causa dos problemas insolúveis, começamos a exalar cava depressão. O carioca da gema dirá: "Qual é a tua, cara, estamos numa boa!" E eu respondo: "Não estamos, não!"
É que esta depressão não é óbvia, visível, daquelas de enfiar a cabeça no bueiro, não.
Ela vem disfarçada por falsas racionalizações. Por exemplo, ela pode vir vestida de um abstrato amor à paisagem: "Ahh... vamos eleger o Cristo maravilha do mundo (cheio de assaltantes na base...)... Ahhh... vamos louvar o Leblon... Ahh... vamos abraçar a Lagoa e pedir a paz... Ah... o Pan foi um sucesso (apesar de ter custado oito vezes mais caro). Esta depressão instalada no Rio também se camufla atrás de um narcisismo auto-suficiente, como se fôssemos ainda "malandros", como se soubéssemos de tudo: "Ah, cara, quem sacou ou, quem não sacou não vai sacar nunca",tudo por trás de um vago "cafajestismo poético", por trás de uma certa irresponsabilidade como tradição "manemolente". Vejo também no Rio uma desinformação disseminada pelas questões políticas mais complexas. Discute-se se as ideologias fossem um fla-flu, tipo "Lula X neoliberais", não se contemplam as ramificações econômicas e políticas de nossa crise atual, há o vago sentimento de uma certa "esquerda" abstrata, da boca para fora, um populismo simplista que deu no que deu: na eleição de Rosinha, em vez de Benedita, na época. (Até hoje, não sei como isso pôde ter acontecido)
A depressão carioca também se transfigura em euforia camavalizada, com a hipersexualização do samba e do turismo, a sacralização das bundas e barrigas, a boçalização da música de massas. Tudo isso é decadência denegada.
Somos uma cidade sem informação, se comparada com São Paulo hoje em dia. Nas escolas, nas universidades, na oferta cultural high brow, São Paulo é muito superior à carioca.
Mas por que falo isso?
Bem, porque acho que também há sementes brotando nesse lixo urbano. Nas periferias pobres, já vimos exemplos como o que o Centro da Periferia nos mostrou na TV, na ação civilizatória do AfroReggae e de outros. Falo também porque vi ontem o filme "Brasileirinho", um belo trabalho sobre o chorinho, feito por um finlandês, Mika Kaurismaki (é incrível como o Cinema Novo passou sem um filme sobre nossa música. Só agora, o "Vinícius", do Miguel Faria). Saí, emocionadíssimo. Lá estava uma esperança, nas músicas e figuras de Maurício Carrilho, Teresa Cristina, Luciana Rabello, Guinga, Paulo Moura, Zé da Velha, Cristóvão Bastos, Carlos Malta, Yamandú Costa... tantos...
Lá estava o indício de que a História de um país gera também anticorpos contra o horror.
Há, no Rio, um renascimento do choro na classe média (minha irmã pianista, Lucília Jabor, já tinha me alertado para isso), ressurge um amor defensivo pela música (e pela vida) que estava silencioso.
Nos botecos do Rio, em escolas, já brotou uma nova moda musical carioca. Eu sou do tempo em que o Rio tinha uma cor artística, um brilho que esmaeceu com a cultura de massas. O choro, o nosso jazz (que aliás salvou a América dos brancos azedos), pode ser uma alavanca de alegria e de orgulho. Acho que o governo de Sérgio Cabral começou cheio de ânimo. Há que se combater a violência, sim, com garra e dureza, mas temos de estimular também a leveza, a alegria. Mika, o diretor, disse: "Nesta batalha entre a tristeza e a alegria, a alegria tem de vencer..."
Sérgio Cabral devia nomear seu pai secretário da Música, cercado por homens como Hermínio Belo, como Paulo Moura, Albino Pinheiro, se fosse vivo.
Winton Marsalis declarou sobre o jazz: "O jazz é como a democracia. Cada um tem direito a seu solo, mas tem de negociar esse direito com o conjunto." O mesmo serve para o choro. Não percam esse filme. É um remédio melhor que qualquer Prozac.
Autor: Arnaldo Jabor
Colunista do Jornal "O Globo" e "O Estado de São Paulo"