




linving stones
da Folha de S.Paulo
O MuBE (Museu Brasileiro de Escultura) vai se transformar em uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) até janeiro do ano que vem, informou ontem (22) seu presidente, Jorge Landmann.
Com o novo status, o museu --atualmente uma sociedade privada, com acesso mais restrito a benefícios financeiros e fiscais-- quer obter mais recursos, por meio de leis de incentivo, para montar exposições.


Conheci a Neysa, por obra do acaso. Uma psicóloga, uma escritora e uma mulher admirável. texto Neysa Prochet
imagem paloma perez
Por que relacionamentos são complicados?
Uma resposta que me vem à mente é quase absurda em sua obviedade. Porque é necessário nos defrontarmos com um outro, com o outro que nunca é como somos.
Qual o lugar desse outro na nossa vida?
Como é possível avaliar um relacionamento?
Por sua constância? Duração? Fidelidade? Recompensas? Serviços prestados?
Muitas vezes as relações são marcadas pela lei do tudo ou nada. Nada menos que tudo é pedido e, com isso, o desapontamento é inevitável.
É como se aquele por quem alguém se apaixone tivesse o encargo de suprir carências, desvanecer medos, completar experiências, atender a desejos e expectativas. Isso é tão mais comum, quanto menos feliz se foi no passado.
Só reconhece quem conhece. Quem não foi feliz um dia, como pode saber que felicidade não é uma experiência homogênea e contínua? Que não é constante nem possível de ser eternizada? Como saber que completude não se encontra no outro, mas no alívio em se perceber com falhas, mas inteiro?
Se fomos felizes um dia, se encontramos no passado, conforto, segurança e uma certa aceitação de ser quem se é, conseguimos, no presente, suportar as desilusões e manter, dentro de nós, a crença de que, embora nunca sejamos totalmente felizes, a não ser em breves momentos, podemos ser suficientemente felizes em nossos relacionamentos. Mesmo que eles acabem, um dia.
A finitude nos dá a vida de presente. É ela que introduz o passado, o presente e o futuro em nossas vidas. O passado foi o que tivemos, o presente é o que vivemos e o futuro é para onde nossos sonhos apontam.
O grande risco dos relacionamentos é que o futuro também nos indica o que está além de nós, no outro, no acaso e no acidental.
Pensamos que, se soubermos com antecedência o que vai acontecer, estamos nos protegendo e que o conhecimento do futuro irá impedir a dor, o sofrimento e o risco. A previsibilidade busca atingir não só os acontecimentos no meio, mas também os relacionamentos que vivemos. Quando imaginamos que sabemos o que e o porquê do comportamento de alguém, talvez não percebamos que há experiências emocionais distintas das vividas por nós.
Também podemos pensar que seria melhor viver sob a lógica do pior – nada vai acontecer, nada é possível esperar.
Que loucura achar que é mais fácil suportar uma resposta cruel e trágica do que o fato de não se saber as respostas!
Há uma música dos Titãs que diz: "O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído". Ou seja, suportar este acaso sem que uma preocupação excessiva com ele nos roube o tempo que poderia ser dedicado a simplesmente viver. Só dessa forma o que está além de nós e de nosso controle deixa de ser uma ameaça permanente à continuidade da própria existência. O que quer que o futuro nos apresente são contingências da vida.
Todo este processo leva tempo, artigo de luxo em nossos dias de instantaneidade de espaço, localizações e tempos reduzidos.
Estabelecer uma relação é dar tempo para que ela seja construída e cada um dos membros destes relacionamentos possua estatuto de existência pessoal.
É poder reconhecer a existência de limites no nosso poder e no nosso conhecer, ou seja, que não nos seja totalmente insuportável a distância entre o que somos e o que gostaríamos de ser, assim como o que o outro é e o que queríamos que ele fosse.
Aceitar que, se o outro não é ou não fez o que esperávamos, isso não é, necessariamente, um insulto pessoal ou uma rejeição, mas um gesto pessoal, que pode ser aceito ou não, mas que não precisa ser revidado.
Aceitar o espaço entre um e outro sem que este espaço seja abismo.
Acreditar que uma relação precisa ter possibilidades e não um destino marcado.
imagem paloma perezEmbora qualquer época vivida, se vivida na acepção mais plena do termo, faça o mesmo, o período que se estende entre os quarenta e os cinqüenta anos é uma fase marcante na história pessoal de uma mulher. Como na adolescência, o corpo, mais uma vez, começa a se transformar, apesar das múltiplas precauções que o zelo físico e as biotecnologias, preocupação pós-moderna, oferecem. Percebe-se ou é antevisto, algo que, se antes era quase uma ficção, passa a ser uma realidade tangível e ameaçadoramente próxima – envelhecer é um fato da vida e acontece com todos, sem exceção, exceto, é claro, quem morre antes.
Numa sociedade que hipervaloriza a estética, a juventude e a rapidez, envelhecer pode ser uma experiência assustadora se o passar do tempo parece ser uma ameaça à integridade de ser e à auto-estima. Se as mudanças colocam em risco uma integridade essencial, serão vigorosamente rejeitadas, numa proteção aflita e inútil contra algo que escapa ao controle, a passagem do tempo. Por isso, hoje, não é possível mais falar apenas de infância, adolescência, vida adulta e velhice. O esforço de perpetuar um estado de juventude propiciou o surgimento de uma condição que podemos chamar de adultescência, termo criado a partir da fusão de duas etapas clássica: a vida adulta e a adolescência.
Segundo David Rowan, em Um glossário para os anos 90, adultescente é aquela pessoa imbuída de cultura jovem, mas com idade suficiente para não o ser. Geralmente entre os 35 e 45 anos, os adultescentes não conseguem aceitar o fato de estarem deixando de ser jovens.
Levamos cada vez mais tempo e dedicamos mais esforços para postergar as transformações corporais inerentes ao viver humano. Levamos tanto tempo para aprender a conviver com as mudanças que, quando aprendemos, já está muito tarde para termos usufruído do prazer de vivê-las, no esforço de adiá-las, indefinidamente. Tempos de mudança são sempre complicados e só passíveis de serem tolerados se, dentro da mutabilidade inevitável, uma certa estabilidade é obtida, um ponto de equilíbrio onde o indivíduo possa se apoiar, uma área de sustentação durante o processo de transformação. Falo da possibilidade de poder ser a si mesmo, sem ter de, necessariamente, ser o mesmo, sempre.
A fase dos quarenta talvez seja um dos períodos em que fiquemos mais conscientes acerca da importância do tempo em nossas vidas. Mais ou menos como acontece na adolescência, parece ser um tempo entre tempos, com a diferença de que o apogeu da vida adulta, em vez de ser uma meta a ser alcançada no futuro é um presente que precisa ser mantido a todo o custo, pela possibilidade aterrorizante de se converter em experiência passada.
Falar desse tempo é como olhar num espelho que está a dez centímetros do próprio rosto. De imediato, o que chama a atenção são as marcas do tempo numa face desconhecida. É o que acontece quando se está próximo demais do fenômeno a ser observado. Perde-se a visão do conjunto em detrimento à percepção aguda do detalhe.
É só depois da estranheza e da recusa que, aí sim, por meio do afastamento que a estranheza provoca, podemos estabelecer certa distância e identificar, com alguma serenidade, a face daquele estranho que nos observa e que também parece familiar, e nele reconhecer, juntamente com o rosto da maturidade, a criança e o jovem que um dia fomos. A bagagem de uma boa parte da vida está ali, nos traços mais marcados, no corpo menos jovem, a pele com menos viço. Mais curioso ainda é descobrir que eles, a criança e o jovem, na verdade, nunca se foram. Apenas não são mais os protagonistas dos acontecimentos cotidianos. Cederam seu lugar àquele rosto maduro, desconhecidamente conquistado, mas que nos pertence integralmente.
Aí vem o prazer. O prazer que advém de prescindir cada vez mais da aprovação alheia, tão necessários na juventude, mas dispensáveis, em grande parte na maturidade. Vem o prazer de perceber que o amor e o ardor não dependem da carne firme ou da pele jovem ou mesmo do nível dos hormônios, mas daquilo que vem de dentro da gente e que “não tem descanso, nem nunca terá, que não tem cansaço, nem nunca terá, que não tem limite” (Chico Burque/"O que será"). Vem da força de ter sobrevivido aos tempos difíceis e de ter saído deles renovado e mais forte.
Vem do prazer de saborear os momentos de felicidade, das pequeninas coisas, de abrir mão da urgência, do agora ou nunca, de poder se perguntar diante de algo que o incomoda: qual o valor disso, daqui a um ano? E, dependendo da resposta, poder escolher o que fazer ou dar de ombros e dizer: dane-se! Vem da percepção de que o tempo não é um inimigo a ser combatido, mas um grande aliado, se reconhecido como tal. Ele nos dá muito, só não trabalha numa clínica estética.
Vem de poder dizer: era bem legal lá atrás, mas eu prefiro agora.
set. 2004
imagem paloma perez
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